Prana Filmes

O acrobata

By on September 05th, 2010

Um ou dois roubos diários numa linha de metrô que atende mais de cento e setenta mil pessoas é perfeitamente aceitável. Nenhum jornal publicaria uma linha a respeito. Nenhum político perderia seu precioso tempo fazendo discurso. Nenhum delegado poria um inspetor pra correr atrás de punguistas pés de chinelo com a cidade transbordando de assassinos, estupradores e cafajestes capazes de torturar a própria mãe para arranjar dinheiro e comprar uma pedra de crack. Trombadinhas são um problema da segurança particular do Trensurb, e não da Terceira Delegacia de Polícia de Sapucaia do Sul. O problema é que quase todos os roubos, nos últimos dois meses, estavam acontecendo na mesma estação, a nossa, os seguranças particulares não conseguiam prender ninguém, e uma das vítimas, estudante de advocacia do Centro Universitário Vera Cruz, era neto do juiz Goulart, da Vara de Execuções Criminais. O rapaz disse pro vovô que tinha perdido a mochila, a carteira e seu preciosíssimo caderno com todas as anotações das aulas de Direito Romano, o que com certeza lhe custaria a reprovação na disciplina. O vovô, que ajudava a pagar o curso, falou com o Xavier, que me chamou na sua sala com cara de quem tinha levado uma mijada das boas.

“Porra, Otávio, eu já tinha te mandado resolver essa merda no Trensurb.”
“Fiquei lá dois dias, na moita, aí apareceu o Chagas e tu me mandou mostrar pra ele o nosso modus operandi.”
“Não interessa!”
Xavier estava muito puto, o que ele sempre demonstrava coçando furiosamente a axila esquerda.
“A tua missão não foi cumprida. Volta lá e pega o desgraçado que afanou o neto do juiz.” Sem discutir, pois a coceira no sovaco do Xavier era um sinal de perigo iminente, fui de ônibus pra estação. Cheguei à uma e meia, a tempo de pegar o movimento dos alunos da universidade que chegavam para o turno da tarde. A maioria dos roubos acontecia de manhã cedo, quando a estação ficava repleta nos dois sentidos – operários indo para Porto Alegre e estudantes vindo para Sapucaia – mas também tínhamos registro de ataques entre meio-dia e duas, e no final da tarde. Pelo relato de algumas vítimas, o ladrão tinha um modus operandi nada sutil. Não se tratava de um batedor à moda antiga, um artista capaz de surrupiar uma carteira depois de um breve encontrão. Era alguém que simplesmente arrancava bolsa, pasta, mochila ou sacola e saía correndo, tão rápido, no meio de tanta gente, que a vitima não conseguia reagir. Quando os gritos de “Pega ladrão” soavam, o larápio já tinha sumido.
Eu já tinha conversado com o segurança particular da estação, um sujeito que adorava bancar o sabido, e ele me garantiu tratar-se de uma quadrilha organizadíssima, que desafiava seus permanentes esforços. Eles sempre atacavam longe de onde estava, de modo que, segundo deduzira, devia haver um elemento que verificava sua posição e depois ligava com um celular para o segundo elemento, que efetuava o roubo. Um terceiro elemento com certeza esperava nas proximidades para sumir com o objeto roubado. Um esquema infernal, quase infalível.
É claro que o sujeito estava apenas justificando sua incompetência, mas numa coisa ele tinha razão: quase sempre o ladrão que pega a bolsa se livra dela logo depois, pois assim pode se deslocar com mais segurança. Se o ataque foi executado conforme o figurino, a possibilidade do punguista ser reconhecido pela vítima ou por uma testemunha é muito pequena se não estiver portando o objeto roubado. Assim, eu não acreditava num trio, mas estava preparado para uma dupla.
Nas minhas campanas anteriores eu verificara com cuidado a arquitetura do lugar. A estação tinha dois andares. No térreo estavam as plataformas por onde passavam os trens e acontecia o embarque e o desembarque. O segundo andar era para o acesso dos usuários, através de duas rampas longas, uma para cada lado da linha, que acabavam nas calçadas de ruas sempre movimentadas. Entre o térreo e o segundo andar, nos dois lados, separadas por uns trinta metros, havia uma escada rolante e uma escada normal. Como os ataques aconteciam sempre no térreo, o ladrão, para fugir, tinha que usar as escadas e depois as rampas, pois as plataformas, no térreo, eram fechadas, e muros altos impediriam qualquer saída entre os trilhos e a rua. Resumindo: parecia ser um péssimo lugar para roubar alguém e sair correndo. Pensei numa possível combinação entre os marginais e o segurança, mas os roubos eram pequenos demais, mixaria, para um acordo desse tipo. O problema dos trombadinhas de merda é que ele tinham levado a carteira e o caderno do neto do juiz. E o meu problema era acalmar logo o delegado, antes que ele me mandasse investigar coisa muito mais desagradável.
Tracei logo meu plano, que parecia infalível: ficar esperando o ladrão, o mais confortavelmente possível, de preferência tomando uma cerveja bem gelada, num local que me permitisse ver as quatro escadas entre os dois andares da estação. Infelizmente esse lugar não existia. Eu tinha que escolher um dos lados dos trilhos. Naquele horário, pouco antes das duas, o movimento maior seria no lado que recebe os estudantes de São Leopoldo e Novo Hamburgo para o turno da tarde do Vera Cruz. Comprei uma cerveja num bar e me encostei numa parede. Algumas pessoas com certeza perceberiam que eu era um rato tomando cerveja e esperando alguma coisa acontecer – muitos vagabundos de Sapucaia usam o trem – mas eu achava que aqueles ladrõezinhos baratos ainda não conheciam meu elegante perfil. Era uma questão de tempo. A cerveja terminou, e nada aconteceu.
Voltei às cinco e meia e dessa vez fui para o outro lado dos trilhos, acompanhar a saída dos estudantes para o Vale dos Sinos e a chegada dos operários vindos de Porto Alegre. Peguei mais uma cerveja. Afinal, esse era o meu disfarce. As duas que tomara entre a DP e a estação eram a garantia de que meus reflexos estariam normais na hora decisiva, quando identificaria e prenderia os perigosos marginais. Se estou sóbrio demais confundo as coisas e faço tudo errado. Encostei-me na parede, relaxei e esperei. A cerveja não estava nem na metade quando ouvi gritos de “Pega ladrão”. Coloquei a cerveja no chão e aproximei-me da escada normal, pois, sendo mais larga que a outra, era uma rota de fuga melhor. Abri um pouco os braços, esperando o sujeito como quem vai abraçar um grande amigo. E nada aconteceu. Ouvi mais um “Pega ladrão”, desta vez mais baixo, e depois apenas o murmúrio das pessoas na estação, o ruído de um trem indo embora e o ronco da minha barriga protestando pela interrupção repentina no fluxo de cerveja. Peguei a garrafa, esvaziei-a rapidamente e desci a escada, a tempo de ver o segurança sabido, todo suado, caminhando na direção da vítima, uma moça de uns 20 anos, muito magra, muito desengonçada e muito vesga, de quem se sentia mais pena pela aparência, eterna, que pelo roubo, efêmero.
A moça, por sua vez, não tinha a menor idéia da aparência do ladrão. Sentira apenas a bolsa sendo puxada, uma dor no braço e, quando tentara olhar para um lado, ouvira os gritos de “Pega ladrão” do outro. A moça estava chorando, tirara os óculos, e estava ainda mais feia. Um típico drama sapucaiense. Nada de testemunhas. Nada de imagens das câmeras de segurança, que estavam no conserto. Eu quase ofereci uma cerveja pra ela, mas poderia ser mal interpretado e desisti a tempo. Apenas disse que era policial e que, se a bolsa fosse recuperada, ela podia passar lá na Terceira DP. Ela fez cara de quem não leva a menor fé. Era feia, mas não era burra.
Se o cara não tinha usado as escadas, tinha que ter escapado pelo térreo. O que parecia impossível. Se tivesse cruzado os trilhos, arriscando morrer eletrocutado, haveria muitas testemunhas. Se corresse até o fim da plataforma, teria pela frente duas barreiras muito altas e um muro intransponível para um ser humano. Eu acreditaria se alguém me dissesse que o Homem-Aranha tinha virado ladrão, mas não acreditaria que ele tinha escolhido Sapucaia do Sul para estender suas teias. A coisa toda não tinha explicação. Puta que pariu. Eu estava num beco sem saída, e só mais alguma bebida poderia me fazer raciocinar direito.
Fui para o Majestade, onde os vagabundos de sempre tomavam cachaça e cerveja. Estava muito quente pra tomar conhaque. Fiquei ali no balcão, bebendo, meditando, jogando conversa fora, puxando assunto com possíveis receptadores de cartões de crédito e mochilas bacanas afanadas pelos trombadinhas do Trensurb, comendo ovos cozidos e olhando a movimentação das putas na calçada. Todos sabiam que eu era um rato, mas também sabiam que tipo de rato eu era, de modo que ali ninguém me enchia o saco, e eu me sentia em casa. Na verdade, melhor que em casa, porque na minha Brastemp de segunda mão as cevas não gelam direito. Pelas duas da manhã, um velho chato do meu lado, que se dizia meu amigo, começou a cantar uma música de Lupicínio Rodrigues. Fui pra casa xingar a Brastemp. Toda aquela meditação, contudo, me fizera bolar um plano perfeito para a próxima campana do Trensurb: me encostar numa parede do térreo e esperar as coisas acontecerem.
Dei uma folga para os trombadinhas. Mesmo se fossem débeis mentais não atacariam dois dias seguidos no mesmo lugar. Quando acordei, às duas da tarde, passei rapidamente na delegacia e escrevi um relatório para o Xavier, dizendo que tinha reunido importantes evidências e que os resultados logo apareceriam. Avisei também que dedicaria o dia a contatos com informantes. Tudo mentira. Comprei duas pizzas de calabresa e voltei pra casa. Gosto de ver filmes na televisão, principalmente depois que um sujeito simpático, com apenas duas passagens rápidas pelo presídio do Jacuí, e que vinha atuando como instalador de TV a cabo na vizinhança, me deu de brinde uma antena e um aparelhinho sensacional que me permite escolher entre cento e vinte e três canais sem pagar nada. Ao contrário de meus vizinhos, raramente assisto pornografia. Gosto de filmes policiais antigos e das pornochanchadas do Canal Brasil, onde revejo as musas da minha juventude: Helena Ramos, Aldine Müller, Matilde Mastrangi, Zaira Bueno e Rossana Guessa. Será que a barriga delas hoje é menor que a minha? Fui dormir antes da meia-noite.
Às sete e meia já estava instalado. Era muito cedo para tomar cerveja. Nesse hora, ainda fresca e matutina, tem que ser conhaque. Eu comprara uma garrafa de Macieira e a esvaziava lenta e discretamente. Disse para o segurança sabido, que veio pro meu lado com cara de quem ia encher o saco, que eu estava disfarçado de bêbado, e ele acreditou. Sabidão mesmo. Às quinze pras oito, o movimento era tão intenso que eu podia beber sem a menor cerimônia. Um cara que quase tropeçou em mim viu a garrafa e me pediu um gole. É claro que neguei. Não posso desencaminhar trabalhadores honestos. Ele insistiu, e já estávamos a ponto de brigar, quando, a menos de vinte metros, alguma coisa aconteceu dentro da multidão. Ouvi um “Pega ladrão” e olhei por cima do ombro do cara que estava de olho no meu conhaque. De repente, uma pequena sombra negra, um guri com no máximo um metro meio de altura, agarrado numa bolsa e correndo como um azougue, passou por mim. Eu me virei a tempo de vê-lo alcançar a ponta da plataforma e, com dois movimentos inacreditáveis, escalar uma murada de três metros, de onde, não sei como, conseguiu subir para o andar superior e desaparecer. Levou menos de dez segundos para fazer tudo isso.
Entreguei o Macieira para o trabalhador honesto e subi correndo a escada. Nada. O negrinho era melhor que o Homem-Aranha. Mas agora eu sabia algumas coisas muito importantes: ele era uma criança e agia sozinho. Mais: pequeno e magro daquele jeito, devia ser subnutrido, ter uns quinze anos e roubar para a família, aproveitando-se de seu corpo mirrado, mas atlético. Com certeza não usava crack. E mais: conhecendo as estatísticas de Sapucaia do Sul, quem estava ficando com o dinheiro era a mãe, que devia ser solteira, desempregada e desesperada. Eram apenas hipóteses, claro, mas facilmente investigáveis.
Sem me preocupar com a vítima do roubo – o sabidão que cuidasse dela – fui atrás da Neusa. Acordei-a em seu moquifo no hotel da rua Capitão Fabre, e ela ficou puta:
“Porra do caralho! Trabalhei até às três. Dei a boceta durante uma hora e meia prum cara que tinha tomado dois Viagras de 100 e me disse que eu era parecida com a Mulher Melancia. E tu me aparece antes das nove! Desde quando tu trabalha nessa hora?”
“É urgente, Neusa. Preciso saber quem está recebendo cartões de crédito, cheques, talvez mochilas e bolsas, de uma mulher que mora perto da estação do Trensurb, tem um filho negro, de uns quinze anos, mas que parece ter doze, de tão magrinho. Ela está desovando as coisas que o filho rouba há uns dois meses. A mulher me interessa mais que o receptador.”
“E como eu vou saber de uma porra dessas? Não sei nem o nome do filho da puta que me chamava de Mulher Melancia ontem de noite.”
“A tua amiga Maria Antonieta não foi trabalhar naquela zona perto do Trensurb?”
“E daí?”
“Aposto que ela sabe de alguma coisa.”
“Tu acha que toda puta é desonesta?”
“Não disse isso. Acho que toda puta sabe o que acontece em volta dela.”
“Isso a gente sabe mesmo. Questão de sobrevivência”
“Então, Neusa, dá essa força pra mim, que eu te arranjo um troquinho bacana.”
“Quanto?”
“No mínimo cem. Cento e cinqüenta se a informação vier ainda hoje,”
“Mixaria.”
“Muito mais do que tu ganha por ser parecida com a Mulher Melancia.”
“Não sou parecida com essa vagabunda. Ela é muito vulgar!”
Mas Neusa já estava sorrindo, excitada pelo dinheiro fácil que poderia conseguir com algumas ligações de celular. Ela disse:
“Vai tomar umas cervejas e volta aqui ao meio-dia.”
O Bar Majestade fica na mesma rua. Muito conveniente. Fiz o que Neusa pediu e voltei.
“Cadê o dinheiro?”, perguntou, vitoriosa. Tinha até tomado um banho e estava com cheiro bom.
“Pego com o delegado hoje mesmo.”
“Quero antes das seis da tarde. Vou pra Porto Alegre, passear no Barra Shopping com a Maria Antonieta.”
“Prometido.”
“Não vou dizer o nome do cara que recebe a mercadoria, mas posso dizer o nome da mulher que leva as coisas pra ele.”
“Tudo bem.”
“Ela se chama Glória. Tenho o endereço. Fica a cinco quadras da estação.”
Peguei o endereço, beijei Neusa e tomei um táxi. Em menos de dez minutos, estava batendo na campainha de uma casinha pequena, meio torta, com a pintura descascada e o telhado desabando. Glória abriu a porta e, num instante, percebeu o que eu estava fazendo lá. Posso ser um rato meio diferente, mas sou um rato. Mostrei a identificação e pedi pra entrar. Ela me fez sentar num sofá forrado com plástico e perguntou o que estava acontecendo.
“Eu vi seu filho, pouco antes das oito da manhã de hoje, roubando uma bolsa no Trensurb.”
Ela abriu a boca, ia protestar, negar, dizer que seu filho estava no colégio naquela hora, mas tudo isso morreu antes de sair por aquela garganta magra e maltratada. Ela só conseguiu olhar para baixo. Eu segui em frente:
“A senhora pode chamar seu filho? Eu preciso falar com ele.”
“O Liédson está brincando no vizinho.” Ela levantou os olhos. “Prometo que ele nunca mais fazer isso.”
“Eu tenho que falar com o menino.”
“Não é culpa dele.”
“Com certeza não é.”
“Então dá uma chance pra ele, doutor. Todo mundo no colégio diz que ele vai ser atleta. Sabe quanto ele pula no salto em altura? Um metro e sessenta.”
”Quantos anos tem seu filho?”
“Nove. Faz dez em maio”, contou, orgulhosa e esboçando um sorriso.
Eu sorri também e confessei meu erro de avaliação:
“Eu achava que era um guri de quinze com corpo de doze, mas é um guri de nove com corpo de doze.”
“O pai era muito alto e magro.” Fez uma pausa. “Centroavante do Sapucaia. Foi jogar futebol no Mato Grosso e nunca mais apareceu.”
Gostei da Glória. Também senti pena dela e do menino. Mas o meu problema era acalmar o Xavier. Tive uma idéia:
“Por acaso a senhora não guardou algumas coisas que não tinham valor e que estavam dentro das mochilas e das bolsas?”
“Que tipo de coisa?”
“Cadernos dos estudantes, por exemplo. A senhora não lembra de um sobre Direito Romano?”
Glória levantou-se e desapareceu pela porta que levava à cozinha. Ouvi o barulho de alguma coisa sendo arrastada. E logo ela estava de volta, com um caderno grande nas mãos.
“Eu estava guardando os cadernos com muitas folhas em branco pro Liédson usar na escola. Será que é esse?”
Era. Na capa estava o sobrenome do juiz, em letras muito bem caligrafadas. Na primeira folha, o título “Direito Romano”. Na folha seguinte, a data e dois parágrafos confusos, seguidos de um desenho pornográfico muito mal feito. O resto do caderno estava vazio. O vovô juiz não sabia que estava jogando dinheiro fora. Olhei para Glória e disse o seguinte:
“Não preciso ver seu filho agora, mas preciso ter certeza absoluta que os roubos vão acabar. Se acontecer mais um, mais um só, venho aqui e levo ele pra FASE, em Porto Alegre.”
“Entendi.”
“Vou ficar com esse caderno.”
“Tudo bem.”
“Não guardou alguma mochila bacana?”
“Não. Vendi tudo.”
“Qual é o colégio do seu filho?”
Ela deu o nome e o endereço. Eu menti que o moleque seria vigiado o tempo todo, que ele não daria um passo sem um agente da lei no seu encalço. Talvez ela tenha acreditado. Voltei pra DP e coloquei o caderno sobre a mesa do Xavier.
“Taí o caderno do filho do juiz Goulart. O guri e não vai rodar em Direito Romano.”
O delegado sorriu ao ver o nome na capa e disse:
“Recuperamos o bem mais precioso. O Goulart vai ficar embasbacado com a nossa eficiência.”
“Espero que sim, chefe.”
Xavier gostava de ser chamado de chefe. Continuei:
“Preciso de duzentos reais para o informante.”
Xavier abriu a gaveta e me passou o dinheiro, que eu guardei rapidamente. O delegado perguntou:
“Cadê o ladrão? Quero falar com ele.”
“É uma criança. Não vale a pena. Falei com a mãe, e ela prometeu que os roubos vão parar.”
“Tu pelo menos deu uns tabefes na criança?”
“Dei. E ele entendeu tudo direitinho.”
“Claro. E vai voltar a fazer a mesma coisa daqui a uma semana. E tu vai voltar na casa dele e dessa vez vai fazer o que já devia ter feito: prender o moleque. Quer apostar?”
Eu não quis apostar. Sabia que ia perder. Às duas, fui almoçar com Clemenciano, o escrivão. Contei pra ele sobre o negrinho que era melhor que o Homem-Aranha e descrevi o modo como Liédson tinha escalado o muro do Trensurb. O negrão ainda estava abalado pelo assassinato de Luizinho, seu afilhado de quinze anos, menos de uma semana antes.
“O destino deles está traçado”, disse o escrivão, tristemente, sem levantar os olhos do bife a cavalo.
Comemos em silêncio por algum tempo. Então Clemenciano olhou pra mim e disse:
“O moleque é bom mesmo?”
“Ele é espetacular. De circo.”
“Pois é nisso mesmo que estou pensando. Ali em Cachoeirinha tem uma escola de circo. Já vi uma apresentação dos alunos, e têm alguns muito bons. Fazem acrobacia, equilíbrio, giram aquelas garrafas no ar. Os professores vêm de Porto Alegre e não cobram nada. Quem sabe o moleque se interessa?”
No final do expediente voltei à casa de Glória. Ela estava com os olhos vermelhos. Falei da escola de circo. Disse que o moleque tinha que se matricular e cursar durante pelo menos um mês. Fazia parte do nosso acordo pra não botar o Liédson em cana. Passei cinqüenta reais pra Glória: “Dinheiro pras passagens até Cachoeirinha.” Os outros cento e cinqüenta já estavam na bolsa da Neusa, que naquele momento examinava as vitrines do Barra Shopping com Maria Antonieta.
Glória agradeceu e disse que faria tudo conforme o combinado. Comprei uma garrafa de Steinheger e voltei pra casa. A pornochanchada daquela noite era meio chata. Zapeei um pouco. Estava quase desistindo, e a garrafa de Steinheger estava quase vazia, quando, num daqueles canais falados em inglês que nunca têm alguma coisa que preste, apareceu um sujeito vestido de branco dando umas cambalhotas absurdamente altas, com a ajuda de um elástico que estava pendurado no teto. A legenda dizia “Cirq du Soleil”. Fiquei assistindo por algum tempo. Pensei: aposto como esse sujeito não conseguiria escalar aquele muro do Trensurb como o Liédson, nem com essa porra de elástico preso na cintura. E imaginei o negrinho naquele circo, viajando o mundo todo, ganhando dinheiro, tirando a mãe daquela casa quase desabando. Besteira, pensei. O que uma escola de circo em Cachoeirinha pode fazer por um trombadinha de Sapucaia?
O tempo passou, não tivemos mais roubos na estação, e eu esqueci o guri, atarefado que estava com os barbados que continuavam matando, mutilando e estuprando sem parar. Um belo dia, quase um ano depois, entra a Glória na Segunda DP. Vestido pobre, bolsa velha, mas a cara boa, sorridente. Ela veio direto falar comigo:
“Bom dia, inspetor. Lembra de mim?”
“Lembro.”
“Eu queria mostrar uma coisa pro senhor.”
Abriu a bolsa, pegou uma foto e estendeu-a pra mim. Era um grupo de crianças e jovens, muito felizes, posando como uma equipe de futebol no saguão do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Ele apontou com o dedo para uma das crianças e disse:
“É o Liédson. Embarcou ontem para a França, junto com os colegas da escola de circo. Vão se apresentar em Paris, tudo pago pelo governo de lá. Sabe o que ele é agora? Um acobrata.” Parou, percebeu o erro, e, envergonhada, corrigiu:
“A-cro-bata. Acrobata! Ainda não sei pronunciar direito.”
Disse que a foto era um presente e foi embora.

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