Prana Filmes

Meio madeira, meio alvenaria

By on September 13th, 2010

Olhar uma velha caquética pendurada numa forca, balançando de um lado pro outro e cheirando mal, no meio de uma sala pequena e escura, não é a melhor maneira de se começar um final de semana. O Jeferson tinha entrado na casa e visto o corpo às seis da tarde. Disse pro Xavier que não ia pegar o caso nem fodendo, porque estava de folga no sábado. O delegado devia estar devendo algum tipo de favor pro imbecil e aceitou a desculpa. Se fosse uma loira gostosa com um tiro na coxa, o Jeferson estaria no caso. Já velhas enforcadas, sabor pizza quatro queijos podres, são pra mim. Cheguei no local a pé, às seis e meia de uma sexta chuvosa, fria, úmida, enfim, o normal do inverno de Sapucaia. A casa da velha ficava a oito quarteirões da minha. O Jeferson nem entrou comigo, só fez um relatório tão limitado quanto o cérebro dele:

“Alguém ligou pra delegacia e reclamou do cheiro. Como eu tava comendo mosca, vim dar uma olhada. Já chamei o rabecão. Agora é tudo contigo. Te fode.”
E foi embora no Gol. Dois sujeitos estavam parados na entrada da casa, espremidos ao lado da porta, protegendo-se da chuva. Fui falar com eles.
“Vocês que ligaram pra delegacia?”
“Não, senhor”, disse o mais alto, sem um dente. Ele estava assustado.
“Eu também não”, disse o outro. “Eu sou vizinho, vi o carro da polícia e vim verificar o que estava acontecendo. Esse aqui é meu compadre, estava me visitando e veio junto.”
“Como é o teu nome?”
“Wilson, com dáblio. Meu compadre aqui é o Zanzibar, vulgo Zanzi, mas não é vulgo de bandido não, é apelido de infância. Zanzibar é meio complicado de dizer.”
Apertei a mão dos dois.
“Prazer, sou o inspetor Otávio.” Olhei pro Wilson. “Tu não tinha sentido esse fedor antes de vir pra cá?”
“Tinha. Desde hoje de manhã, mas achei que era comida podre na geladeira. A minha mulher às vezes esquece alguma coisa, sabe como é, pobre guarda tudo que sobra. Ela foi visitar a mãe em Campo Bom com a nossa filha. Não tava em casa pra dar uma olhada na geladeira.”
“E tu não podia ter olhado?”
“Eu? O senhor quer que eu me divorcie? Nas comidas só mexe ela. Eu mexo ali na prateleira das cervejas, isso quando têm.”
“Vocês viram o corpo?”
“O delegado queria que a gente reconhecesse a vítima”, disse Wilson. “Eu reconheci, mas não sei o nome dela. Todo mundo a chamava só de velha.”
“Ele não é delegado. É só um inspetor idiota.”
“Eu nem conhecia a velha”, disse Zanzibar. “Não precisava ter olhado aquela coisa horrível. Só estou aqui porque o delegado, quer dizer, o inspetor idiota, mandou a gente ficar.”
“Podem ir embora.” Olhei pro Wilson. “Talvez mais tarde eu te faça uma visita.”
“Claro. Seria uma honra.”
“Tem cerveja na geladeira?”
“Tem, sim, senhor. É sexta. O fim de semana taí.”
“Então tira o ‘talvez’. Eu vou certo.”
Os dois saíram. Tive que entrar sozinho naquela porra de casa fedida. A velha tinha usado uma corda de varal, dessas de plástico, amarrada nos parafusos do suporte do lustre, que só não veio abaixo porque a velha era pele e osso, devia pesar menos de 35 quilos. O nó da forca estava muito mal feito. Na verdade nem era um nó de forca, corrediço; era um nó cego. Em vez de morrer estrangulada, por falta de ar ou com o pescoço quebrado, tinha morrido de tanto sangrar: a garganta fora cortada quase de lado a lado pela corda de nylon, um pouco abaixo do queixo. Em suma, serviço de amador. Só morreu porque queria muito morrer. O fedor não vinha só do corpo. Vinha da poça de sangue coagulado que se formara sobre o piso de madeira cheia de cupim. O banquinho da cozinha no qual ela subira para se pendurar estava caído muito perto dos pés. Nem um chute decente ela conseguiu dar.
Fiquei observando o corpo balançar suavemente, tocado pelo vento que entrava pelas inúmeras frestas da casa – construída de acordo com o modelo mais popular da vila: meio madeira, meio alvenaria – e lembrei das minhas aulas de pêndulo no colégio. Mesmo se o vento parasse completamente, o movimento oscilatório persistiria, e sua duração dependeria do coeficiente de atrito da corda com os parafusos do lustre, ou seja, a velhinha enforcada seria um oscilador harmônico amortecido. Ou algo parecido. A porra da aula de pêndulo tinha acontecido há mais de 30 anos, e talvez eu tenha dormido durante a explicação. Peguei minha câmera digital, gentil oferecimento de um amigo contrabandista, e fiz uma meia dúzia de fotos. A velhinha, a corda, o lustre, o pescoço cortado, a poça de sangue, o banquinho.
A causa mortis estava determinada, assim como a autoria. A hora não interessava. Os motivos, ninguém ia perguntar. Eu só tinha que descobrir algum parente e telefonar pra dar a triste notícia o mais rápido possível. Se quisessem fazer velório, gastariam uma fortuna com as flores e ainda teriam que usar aqueles aromatizadores de banheiro, os de perfume mais forte e enjoativo, de cinco em cinco minutos. Melhor fechar o caixão. Mas pobre gosta de ficar olhando, pelo menos é um programa diferente. Rico prefere ir ao cinema, de preferência em 3D.
Vasculhei toda a casa. A velha não tinha agenda telefônica, nem caderno de endereços, nem correspondência de qualquer espécie. Só um celular quebrado. Achei um álbum de fotografias numa gaveta. Era a coisa mais bem conservada da casa. Lá estava a velha quando era criança, fazendo a pequena comunhão. Depois, adolescente (até que era bonitinha; naquela época tinha carne). No casamento usara branco, como manda o figurino. O marido tinha cara de fuinha, devia ser um imprestável, me lembrou um pouco o idiota do Jeferson. E assim por diante. Na última, com uns quarenta anos no máximo, aparecia sentada, sozinha, na frente da sua casa meio madeira, meio alvenaria, com um sorriso forçado no rosto, magro demais e desbotado, mesmo que estivesse protegido do sol por um chapéu de abas longas que tentava ser elegante, mas só conseguia ser patético. Nada de fotos de filhos e netos. Nem de cachorro, gato, periquito. Até que ela aguentou bastante.
Eu estava terminando de olhar o álbum, que não tinha nomes, nem datas, nem porra nenhuma que pudesse ser útil, quando o rabecão chegou. Cumprimentei o Heleno e o Ivo, dois sujeitos bacanas que ganham a vida honestamente recolhendo todo tipo de dejetos humanos, às vezes frescos, às vezes passados, como a velhinha enforcada.
“Vamos esperar a perícia?”, perguntou Ivo, temendo uma resposta positiva.
“Pra quê?”, respondi. “Quanto tempo vocês acham que levaria pra alguém vir de Novo Hamburgo ou Porto Alegre até aqui, numa sexta à noite? Vocês são testemunhas do que aconteceu. Olhem como ela balança elegantemente nessa corda de nylon.”
Os dois me olharam, sem saber o que dizer. Pelo manual, eles só poderiam levar um corpo vitimado por morte violenta depois da perícia. Tive que usar minha voz de comando mais poderosa:
“O manual que vá pastar na casa do caralho. Podem levar, eu assumo a responsabilidade. Ninguém agüenta mais esse fedor.”
Quando o Heleno foi pegar a velha, sem querer deve ter puxado o corpo, porque tudo desabou: a velha, o lustre, o reboco do teto. A casa inteira não caiu porque eu sou um sujeito de sorte. Ficamos às escuras, acompanhados de um corpo fedido, numa casa meio madeira, meio alvenaria da vila Presidente Vargas. Isso é que é começar bem um final de semana.
Mas tudo se resolveu em alguns minutos, O Ivo e o Heleno são craques nesse tipo de coisa. Disseram que não tinha sido a primeira vez, nem seria a última. Assim que o rabecão foi embora, bati na casa do Wilson. Ele foi logo pegando uma cerveja gelada. Quando secamos a primeira garrafa, disse que tinha um conhaque escondido em baixo da cama, para ocasiões especiais como aquela. Mas tínhamos que ser rápidos, porque a mulher podia chegar a qualquer momento. Enquanto secávamos o conhaque – o dono da casa bancava o bem comportado, mas o cunhado Zanzibar, vulgo Zanzi, o que não era bandido, bebia mais rápido que eu – pedi que o Wilson fizesse um esforço pra lembrar do nome da velha, ou de algum parente, ou amigo, ou cobrador de carnê atrasado, ou qualquer pessoa que a conhecesse. Por mais que o Wilson se esforçasse, e ele fez uma cara de quem estava se esforçando muito, que às vezes parecia a cara de quem queria ir urgente ao banheiro, não lembrou de nada. Uma pena. Quando ouviu o barulho da chave na porta, Wilson pulou na garrafa quase vazia e a escondeu no quarto. Depois beijou a mulher e a filha pequena e me apresentou:
“Meu amigo Otávio, inspetor de polícia. Ele veio atender a velha aí do lado, que se enforcou.”
A mulher – uma morena que provavelmente tinha sido bonita, mas já desistira de se esforçar pra vencer o tempo, a entropia e a gravidade – não foi na conversa dele. Olhou pra mim quase com desprezo e disse, antes de sumir com a filha na direção do quarto:
“Já foi tarde.”
Interpretei aquilo como uma indireta e fui me levantando e dizendo boa noite. O conhaque era ruim e forte, como eu gosto. Saí meio andando, meio tropeçando. Lá fora, percebi que a casa de Wilson, com exceção da pintura mais nova, era igualzinha à da velha. Andei os oito quarteirões até minha própria casa, que, mesmo sendo um pouco maior e menos desabada que as outras duas, seguia o mesmo e clássico modelo: meio madeira, meio alvenaria.

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