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Desconectados 12: O Barco furou

By on August 03rd, 2008

Capítulo 12: O Barco furou.

Maldita hora em que fui convidar esses dois pra jantar. O Fredy chegou totalmente atrasado, os quiches que eu fiz secaram no forno, a Carol já estava totalmente bêbada de champanhe de tanto esperar de estômago vazio, e o Guto ficou vendo um jogo de futebol. O Fredy já foi acusando a Lei Seca de esculhambar com os pontos de táxi.  Disse que não lembraram que não têm táxis suficiente pra dar conta de todos os bebuns. Ele ligou pro convênio, e pela primeira vez não tinham como mandar um táxi pra casa dele. Ele mora num condomínio afastado e teve que sair caminhando até uma rua mais movimentada, que é longe, e ainda  correu o risco de ser assaltado. Já tinha passado a tarde bebendo num desses clubes de turfe eletrônico e chegou bem altinho. Não sei bem o que se passou com nossos amigos, porque estava levando os pratos pra pia. Só sei que eu ainda não tinha servido a sobremesa e os dois já estavam se beijando calorosamente. Eu juro que fiquei chocada com tanta rapidez e intensidade.

*****

A Marta me olhou com uma cara de "o que que é isso?" quando o Fredy cochichou no meu ouvido pedindo o nosso quarto emprestado pra arrastar a Carol. Perguntei se ele queria que eu trocasse os lençóis. Ele disse que não precisava. Marta só se deu  conta do que estava acontecendo quando começou a ouvir os gemidos da Carol vindos do quarto. Marta ficou de cara fechada, não acreditando no que estava se passando. Não estranhei tanto porque o Fredy já tinha usado o nosso quarto, numa das viagens da Marta, mas ela não ficou sabendo. Ficamos, eu e Marta, comendo aquele monte de sorvete de creme com calda de chocolate, em silêncio.

Ouvi o som da minha gaveta de cabeceira abrindo com seu rangido característico.

– Marta, por que será que estão abrindo minha gaveta? Lá têm umas idéias de um projeto anotadas na minha caderneta, que eu não quero que ninguém leia.

– Não sei. Foi tu que emprestou. Eles devem estar procurando camisinha. A Carol tem sempre camisinha, mas, pela intensidade da coisa, o estoque já deve ter acabado. Guto, tu não devia ter emprestado o nosso quarto.

– Eu ia negar pro Fredy? Com todo aquele embalo? Oh, Marta, é só trocar os lençóis depois.

– Mas é o  nosso quarto!

– Marta, tu vive em hotéis, por onde dorme toda a humanidade. Pessoas mil vezes mais porcas que o Fredy e a Carol. O dono do hotel troca apenas os lençóis.

– Ah, é diferente de ser na tua casa, no teu colchão.

Tentei  agarrar a Marta, beijando aos pouquinhos, mas ela estava assustadoramente fria comigo. Eu já estava excitado, com todo aquele clima de puro sexo, mas Marta foi se afastando. E, o que é mais louco, pegou um cigarro da mochila do Fredy, acendeu e começou a  fumar nervosamente. Fazia anos que tinha largado o cigarro. Sua frieza e seu olhar me impressionaram. No meio da fumaça que saía de sua linda boca, veio a palavra mais dura de ouvir em  todos estes anos de união:

– Acabou!

Seguida de:

– Acabou pra sempre. Não agüento mais. Vai embora.

Tomei um cálice de vinho num gole só e saí recolhendo a louça pra cozinha, tentando segurar o choro, mas sabendo que realmente tinha acabado. O som de outro casal transando em nossas dependências, ou melhor, nas da Marta, deixou claro que nós estávamos muito longe do prazer e da empolgação mínima que é necessária pra agüentar o dia a dia de uma relação. E, o pior de tudo, não havia mais amor suficiente pra segurar nossa onda. Depois que Fredy saiu do quarto, pedi pra dormir na casa dele. Ele me olhou apatetado. A Carol, olhando pra baixo, envergonhada e desarrumada, não estava entendendo nada.
 
No domingo, comecei a buscar as minhas coisas. Era tão claro e visível que nosso romance tinha acabado que, nos três dias que fiquei encaixotando meus bagulhos, pra botar num depósito emprestado, eu e a Marta não trocamos uma só palavra. Tudo foi tratado pelo correio eletrônico. Coisa triste acabar assim. Discutindo detalhes pela internet. A Carol e o Fredy seguem namorando, felizes da vida . Nós dois seguimos no clima de enterro desses primeiros dias. Nosso último e-mail foi:

– Adeus, linda e egoísta Marta!

– Adeus, feio e mimado Guto!

 

FIM

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