Prana Filmes

Cabrito

By on October 17th, 2010

      

Todo policial que eu conheço já fez algum serviço por fora. Alguns chamam de “fazer um cabrito”. Não sei a origem do termo. Cabrito bom pra mim é aquele assado com calma, em fogo baixo, servido com arroz, feijão e salada de batata com maionese. Pronto, já fiquei com fome. É o que dá comer pouco no café da manhã. Eu não gosto de fazer serviço por fora, mesmo que às vezes eles sejam muito rentáveis. Já presenciei alguns colegas se fodendo de verde e amarelo por alguns trocados a mais no final do mês. Resumindo: não vale a pena. Como sou uma pessoa sem luxos e tenho meus rendimentos fixos pra complementar o salário – pequenas contribuições espontâneas dos cidadãos de bem de Sapucaia – recuso sistematicamente (e quase semanalmente) ofertas para resolver casos fora do meu horário de trabalho. Digo que não sou detetive particular, que pertenço ao serviço público, trabalho para a população, e, se o sujeito for chato e insistir, mando à merda. Infelizmente, não posso mandar o delegado Xavier à merda.

“Ela se chama Felícia Mendes”, disse Xavier. “É casada com o Dr. Patrício Mendes, dono da Metalúrgica Bom Sapucaiense. O Dr. Patrício financiou boa parte da campanha do prefeito e é amigo íntimo do juiz Goulart. Em suma, o cara manda e desmanda.”
“E a mulher deve mandar nele.”
Xavier baixou o tom da voz e inclinou-se para a frente.
“Não brinca, Otávio, que o assunto é sério. A Dona Felícia telefonou pra mim hoje de manhã, seguindo a recomendação de uma amiga. Ela está com um problema grave e precisa da nossa ajuda.”
“Com todo o dinheiro que tem, devia resolver qualquer problema brincando.”
“Nesse caso, o dinheiro é o problema. Ela está sendo chantageada.”
“Por quem?”
“Por um garoto de programa de Novo Hamburgo. Um guri de merda. Não tem nem 20 anos.”
“Que idade ela tem?”
“Uns 50. É meio gordinha.”
“Meio gordinha? Tipo eu?”
“Eu disse gordinha. Não disse que ela era um barril de banha.”
“A gordinha cinqüentona contratou um amante profissional e agora o garoto quer tirar o rico dinheirinho dela.”
“É. O sacana escondeu uma câmera no quarto do hotel e fez um vídeo na última vez em que se encontraram. Tá ameaçando colocar o vídeo na internet se ela não depositar cem mil na reais na conta dele até segunda-feira ao meio-dia. E garante que, se for denunciado para a polícia, uma cópia do vídeo, que está com um amigo, vai ser espalhada na rede em segundos.”
“Ela já viu esse vídeo?”
“Já. A dona Felícia disse que se o vídeo for pra internet a vida dela acaba.”
“Por que ela não deposita o dinheiro pro garoto? Duvido que vá fazer falta.”
“Ela acha que, mesmo pagando, não vai acabar com a chantagem. Quer ter certeza que todas as cópias do vídeo serão destruídas.”
“Quem pode assegurar uma coisa dessas?”
Xavier sorriu e disse:
“Tu, é claro! Já estou com o endereço do garoto. Vai lá e dá um jeito, inspetor. E lembra: é tudo por fora. Sem relatório, sem ocorrência, sem porra nenhuma. É um favor pra dona Felícia, que é uma pessoa de bem, importante para a comunidade, e que merece o nosso apoio.” Fez uma pequena pausa e completou: “Se tu assegurar que o guri desistiu da chantagem, aposto que ela vai ser generosa. É um cabritinho, Otávio. Dos gordos.”
“Manda o inspetor Jeferson. Os cafajestes geralmente se entendem bem.”
“Ele é muito jovem. Preciso da tua experiência. E não se fala mais nisso. Pode pegar o meu carro e sair agora mesmo.”
Obedeci. Achei que não valia a pena discutir. Pedi cem reais pro Xavier, dizendo que talvez eu tivesse algumas despesas. Ele não gostou, mas me passou duas notas de cinquenta. Dei um telefonema, e, em menos de meia hora, estava estacionando na frente de um edifício de três andares, velho e desbotado, na periferia de Novo Hamburgo. Não havia porteiro eletrônico, e sim uma campainha para cada apartamento. Apertei na do 31. Ouvi uma janela abrindo e olhei pra cima. Uma mulher de meia-idade estava me olhando. Eu disse que queria falar com o Maicon. Ela desapareceu e, logo depois, um garoto grande e imberbe perguntou o que eu queria.
“Queria falar contigo. É importante.”
“Qual é o assunto.”
“Particular. Do seu interesse.”
“Já vou.”
Quando ele desceu expliquei que estava vindo da parte da dona Felícia Mendes e que ela pretendia acertar tudo o mais rápido possível. Ele sorriu, os olhos brilhando de ganância, e entrou no carro do Xavier, um Corolla muito confortável e quase novo. O garoto tinha mais de um metro e oitenta e era cheio de músculos. Tinha uma tatuagem no bíceps direito, “Jiu-jitsu”, e outra no esquerdo, “Death machine”. Dirigi até um terreno baldio ali perto e estacionei atrás de um muro grande. Abri a carteira e, sem dizer nada, estendi as duas notas de cinqüenta pro guri.
“O que é isso?”
“O pagamento pelo vídeo. O original e todas as cópias.”
Ele sorriu amarelo.
“O senhor tá brincando comigo.”
“É pegar ou largar.”
“O preço é cem mil reais, e não cem reais.”
“Cem reais é o preço pela gravação de um momento íntimo, realizada com a autorização de dona Felícia. Tu pega o dinheiro, entrega o vídeo e desaparece da vida dela. Cem mil reais é chantagem, crime que dá de quatro a dez anos de prisão. E eu não desapareço da tua vida até te ver em cana, dando o rabo no Presídio Central, todo santo dia. De graça.”
“Tu não me assusta com essa conversa.”
“Vai pegar os cem reais?”
“Não. Diz pra Felícia que eu espero o dinheiro dela na minha conta até segunda. Se não, o vídeo vai pra internet.”
Eu continuava com o dinheiro na mão.
“Pela última vez, garoto. Pega esses cem reais e me diz onde estão todas as cópias do vídeo.”
“Enfia esse dinheiro no cu.”
Ele abriu a porta do carro e saiu. Não tinha dado nem dois passos quando Durval e Macedo apareceram na frente dele. Nenhum dos dois tinha um metro e oitenta, nem tatuagens bacanas. Não sabiam lutar jiu-jitsu. Também não tinham os músculos malhados, nem a cara bonita do guri. Tinham a cara feia normal dos marginais de Sapucaia. Eu fiquei no carro, ouvindo o diálogo.
“Algum problema?”, perguntou o guri, tentando bancar o durão, mas já traindo o seu medo na voz meio engasgada.
“Com certeza”, disse Durval. “Tu tá prejudicando o nosso ramo de trabalho. Nós somos profissionais, e tu é um amador filho de puta.”
“Vocês são profissionais do quê?”
“Do sexo. Fazemos o que tu faz, mas nós fazemos direito. Recebemos pra comer o que pintar pela frente – mulher, homem, veado, não faz diferença – mas respeitamos a privacidade do cilente. E não gostamos de quem suja o nosso nome.”
Maicon sorriu, como se não acreditasse que aqueles dois sujeitos feios pudessem ser seus colegas de profissão. Parecia mais confiante. Percebi que ele retesava seus músculos e fechava os punhos.
“Vocês dois são garotos de programa?”
Macedo falou pela primeira vez:
“Chama como quiser. Pode até dizer que somos michês, que somos putos, não tem problema.”
“Eu não tenho a nada a ver com vocês. Com licença.”
E deu um passo à frente. Durval cortou a sua passagem e disse:
“O que tu acha que acontece com a nossa reputação profissional se um amador como tu, em vez de fazer o serviço bem feito e receber o que é justo, fica extorquindo as madames?”
“Quem disse que eu estou extorquindo?”
“O nosso colega ali no carro.”
Eu tive que engolir uma risada. Durval estava muito inspirado. Maicon riu sem qualquer constrangimento e disse:
“Aquele velho gordo é garoto de programa? Não fode. Vocês são loucos.”
“Ele tá aposentado. Agora é o líder da nossa categoria. Já foi até pra Brasília e conversou com os deputados pra defender nossos direitos.”
“Cansei dessa conversa. Até logo.”
Maicon empurrou Durval e tentou seguir em frente. Na certa acreditava que, com seu tamanho, seus músculos, sua técnica de lutador de jiu-jitsu, daria conta de dois sujeitos magros e desarmados. O guri, além de ser um cafajeste, era burro demais. Apanhou sem parar por dez minutos. Eu tinha dito que era pra não quebrar osso, nem causar qualquer ferimento sério, mas reconheço que é difícil medir a potência das porradas quando se enfrenta um sujeito grande como Maicon. Deu tudo certo, Durval e Maicon bateram na medida certa, e o guri só perdeu alguns dentes e teve o nariz fraturado. Antes de ir embora Durval disse:
“Se a gente souber que tu comeu alguém por dinheiro aqui em Novo Hamburgo, te encho de porrada de novo. E aí nós vamos bater de verdade.”
Saí do carro e ajudei Maicon a se levantar. Ele cuspiu um dente e disse que precisava ir num hospital. Eu disse que tudo bem, mas antes tínhamos que resolver a questão da dona Felícia.
“Onde estão os vídeos? Quem é esse teu amigo que tem uma cópia?”
Ele respondeu de um jeito engraçado. É difícil falar com a boca cheia de sangue e pedaços de dente rolando de um lado pro outro.
“Não tem cópia nenhuma, nem amigo. Só falei isso pra assustar a Felícia.”
“Nós vamos passar na tua casa agora, pra pegar a fita. Se a tua mãe perguntar alguma coisa, diz que te meteu numa briga. Entendeu?”
Ele disse que sim. A mãe não estava em casa. Quando me entregou a fita, passei uma nota de cinquenta pra ele. Os outros cinquenta eram pra Durval e Macedo, que me deviam um favor e fizeram um preço super especial. O guri de merda tinha pedido cem mil, recusou uma boa oferta de cem e agora tinha que se contentar com cinquenta. Fodido e mal pago. É a vida. Larguei ele no hospital e disse que o negócio dele não era ser garoto de programa. Que procurasse outra ocupação, de preferência em outra cidade. Ele ficou quieto. Voltei pra delegacia e joguei a fita em cima da mesa do Xavier, que sorriu e perguntou se a situação estava sob controle.
“Provavelmente”, respondi.
Dois dias depois, o Xavier me chamou na sua sala e me entregou um envelope. Disse que era um agradecimento da dona Felícia pelo serviço. Coloquei o envelope no bolso da calça sem abrir.
“É muito dinheiro. Abre uma poupança”, aconselhou Xavier.
“Pode deixar.”
Peguei o Trensurb e fui até o edifício de Maicon. Ele ainda estava na cama, se recuperando da tunda de laço, aos cuidados da mãe, que tinha acabado de trazer um caldo de galinha. Esperei ela sair do quarto, entreguei o envelope com o dinheiro e disse:
“É teu. Vê se não faz mais burrada. Tu é um guri novo, tem a vida pela frente. Usa bem esse dinheiro.”
Maicon abriu o envelope e contou. Era bastante. Ele sorriu, banguela. Eu peguei o Trensurb de volta pra Sapucaia e fui beber no Majestade.

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